quarta-feira, 21 de maio de 2014

Sobre o Universo Marvel e Quadrinhos nos Cinemas


Fiquei aliviado ao saber que Fox não planeja um encontro entre o Quarteto Fantástico e os X-Men no cinema. Mas olhando discussões em fóruns e redes sociais, tenho a impressão de que sou o único que tem horror só de pensar em todos os crossovers que acontecem nos quadrinhos acontecendo no cinema.

Eu não acompanho TODOS os HQs e sei bem menos do que gostaria de saber, mas já li e sei o suficiente para dar a opinião de alguém que conhece e gosta tanto do universo dos quadrinhos quanto do cinema.
Nos quadrinhos e nos desenhos eu amo toda essa parafernalha e acho (quase) tudo lindo, mas como cinéfilo, me revira o estômago esses universos se cruzando com orçamentos colossais em filmes que não passariam de pipoca pra Temperatura Máxima da Globo, sem tempo para desenvolver o plot, os personagens, sem tempo para desenvolver nada.

Já basta a franquia dos Vingadores - à qual alguns nerds faltam ajoelhar-se aos pés. Digo, os filmes são ótimos passatempos com uma produção gigantesca, um planejamento invejável (a Fox deveria aprender) e diversos elementos indispensáveis dos quadrinhos. Mas não precisamos de mais gente entrando nesse universo cinematográfico. Sério.

Os motivos?


Uma quantidade como essa de crossovers obriga os cineastas a perder MUITO da sua capacidade de colocar toques pessoais em seus filmes por estarem criando histórias que se passam num mesmo universo. Além do mais, para garantir os "milhões" que produções baseadas em quadrinhos exigem, é necessário perder menos tempo desenvolvendo os personagens e mais tempo criando pancadaria e espetáculos visuais - que nem são tão espetaculares assim, pois geralmente carecem de criatividade na filmagem.
No fim das contas a franquia da Marvel, por exemplo, gastou milhões em 6 anos com 9 filmes já lançados e até hoje não temos personalidades profundas o suficiente para seus personagens para que a empatia que sentimos por eles evolua para uma real significância.
E isso me intriga, já que o único filme no qual eles se encontram todos, as dinâmicas só se tornam interessantes em momentos de humor, e os momentos de tensão entre os personagens se reduzem a brigas cheias de frases de efeito mas que não provocam nenhuma apreensão real no espectador. Os únicos personagens que conseguiram ser bem desenvolvidos o suficiente foram o Homem de Ferro - que deve muito à atuação do Downey Jr - e o Capitão América - que numa manobra espertinha foi aproveitado para ser aprofundado apenas em seu segundo filme solo e terceiro filme no qual aparece na franquia (descontando a participação divertida em "Thor 2").

Em contrapartida, temos filmes que fazem isso em menos tempo de tela e também vários personagens, como a trilogia do Nolan para o Batman, os dois primeiros filmes do Homem Aranha dirigidos pelo Sam Raimi ou os criticados filmes dos X-Men, que mesmo com seus erros cronólogicos e dois filmes realmente péssimos na listagem (os filmes solo do Wolverine), mantém a coerência da personalidade dos seus protagonistas, criando relações interpessoais complexas - como a relação Charles-Magneto - que batem em mil as relações interpessoais vistas na franquia dos Vingadores, que poderia criar coisas geniais com isso.

Um exemplo? Uma das coisas que considero forçadas nos quadrinhos é o fato de os Vingadores, o Quarteto Fantástico e os X-Men viverem no mesmo universo...
Se raciocinarmos um pouquinho que seja, como um mundo onde alguns superseres são adorados pelo que são, outros são discriminados?
Você pode argumentar que estamos falando de vários tipos de superseres diferentes. Ok. Sim, mas todos eles levantariam algumas questões em comum.
Há uma questão importantíssima que o Senador Kelly coloca para Jean Grey em uma das primeiras cenas do primeiro X-Men, trata-se de um diálogo genial do ponto de vista antológico dos super heróis que só vi tratada com essa profundidade na franquia da Fox. Reproduzo abaixo o diálogo, com algumas licenças pois essa é a forma da qual me lembro do diálogo:

Kelly: Os mutantes são perigosos?
Jean: Receio que essa é uma pergunta injusta, Senador Kelly. Uma pessoa embriagada atrás de um volante pode ser perigosa!
Kelly: Mas nós temos o registro da carteira de motorista dela? Agora por exemplo recebi um relatório sobre uma garota em Illinois que consegue atravessar paredes , o que a impede de entrar num cofre, na Casa Branca ou em nossos lares?

Em um simples diálogo o roteiro colocou uma questão que NUNCA foi tratada com essa profundidade em nenhum dos filmes da Marvel, exceto por uma curta referência à forma como os humanos comuns viram a iniciativa Vingadores - a maioria os idolatrou, outros os culparam pela destruição... Mas essa pequena referência não chega perto da profundidade do Peter Parker/Homem Aranha do Raimi (que também é perseguido por ser um vigilante, mas não pelo que ele é fisiologicamente), dos conflitos sociais dos X-Men ou da polêmica sobre vigilantes e política do Batman. Aliás, até o execrado "Man of Steel" do Zack Snyder, que é cheio de defeitos, levanta essa questão do super humano x humano comum. Nos filmes da Marvel, "Capitão América 2" é um dos poucos que trouxe algum tipo de questionamento profundo a esse universo, e ainda assim há muito o que aprender com esse aspecto, afinal, como podemos saber que de repente um super herói não representará perigo para a sociedade tanto quanto um vilão?
Temas profundos como esse são tratados com maestria nos quadrinhos, por exemplo no especial da DC Comics "O Reino do Amanhã", em "Watchmen" - adaptado com fidelidade para os cinemas, e na Marvel é abordado genialmente em "Marvels".


Claro, a finalidade também é a diversão. Estamos falando de filmes "pipoca", não de Ingmar Bergman, mas não gosto de ter a minha inteligência como espectador subestimada (Coisa que umas franquias fazem com a cronologia, outras com os roteiros). Sim, é necessário que nossas mentes nerds se maravilhem diante de sequencias de ação de tirar o fôlego e incríveis efeitos especiais. Óbvio também que os corações nerds adorariam ver vários dos seus arcos preferidos dos quadrinhos, mas também devemos levar em consideração que uma coisa é adaptar com fidelidade absoluta Graphic Novels conceituais como "Watchmen", "Sin City" ou "V de Vingança", outra é passar décadas de quadrinhos cheios de crossovers, universos paralelos, mortes e ressurreições e tempestades temporais para uma indústria que, além de muito mais incerta e maleável, é muito mais cara e disponibiliza MUITO menos tempo em tela para os personagens do que o que eles tem em páginas.
Além disso, cada arte tem sua forma de propor e a do cinema é BEM diferente da dos quadrinhos.
E uma das semelhanças entre ambos que os fãs parecem não considerar é que cinema é uma arte tão autoral quanto comics.
Um diretor ou um roteirista tem todo o direito de fazer sua releitura de um universo e isso é perfeitamente aceitável se ele fizer isso com qualidade. Cabe à inteligência do público captar a essência do material original na tela (que desculpem-me os defensores da pancadaria, mas definitivamente a essência dos quadrinhos ao meu ver está em seus personagens e não nas suas roupas, poderes ou lutas físicas), assim como conseguir identificar as claras referências que até as adaptações menos fiéis fazem aos quadrinhos.

Creio que a construção de um universo Marvel como é nos quadrinhos não pode ser feita no cinema.
Talvez na televisão, se a Marvel tivesse um canal próprio e todas as suas séries fossem dos seus personagens se passando no mesmo universo e volta e meia se fizessem minisséries e telefilmes com crossovers e coisas do tipo.
No cinema isso é impraticável do ponto de vista artístico E comercial.

Tendo isso em vista, não morro de amores pela possibilidade do Homem Aranha, dos X-Men e do Quarteto voltarem à Marvel. Minha única lamentação se encontra em universos alternativos que unem esses personagens e eu tinha vontade de ver adaptados ao live action - como "Marvel 1602" do Neil Gaiman, "Marvels" de Kurt Busiek e Alex Ross ou "Dinastia M",  por exemplo.

Obs.: Nem entrei nos méritos visuais fúteis como o mimimi em torno dos uniformes, por que acho uma das reclamações mais desnecessárias possíveis. Nunca vi nenhum filme deixar de lado as características físicas dos personagens que fossem essenciais para a história deles.

3 comentários:

  1. Textinho cheio de ignorância fanboy, você nutri um obvio desgosto (inveja) pelo sucesso do planejamento da Marvel, e fecha os olhos para o desenvolvimento de seus personagens em seus devidos filmes solos, todos eles tiveram tempo para se desenvolver, Thor 1 apresentou o protagonista em sua fase de arrogância e sua aprendizagem na terra, tivemos o Cubo Cosmico, a evolução do ego conquistador do Loki e seus sentimentos incertos pelo irmão, o filme pode não ter tido um grande sucesso, mas o personagem foi bem desenvolvido, agora só porque voce não lembra do filme (ou seu desgosto fanboy pela Marvel não deixa voce pensar e analisar a historia) voce vem dizer que não tem desenvolvimento de personagem? continuando... Homem de Ferro 1 foi uma introdução perfeita, vimos um bilionário armamentista sofrer com sua própria criação, e reverte-la para algo a mais, em Vingadores vimos o resultado desta evolução a onde Stark inaugura sua torre auto sustentável com energia limpa, que no futuro ira se tornar a torre dos Vingadores, tivemos a SHIELD que foi construída logo depois dos acontecimentos de Capitão America 1, e no final do filme vemos o Cubo sendo retirado das profundezas, na qual sua energia seria revertida para a construção de novas armas e equipamentos futuristas (assim como a Hydra estava fazendo) é por isso que a SHIELD possui um porta aviões que voa, uma tecnologia tão a frente do nosso tempo que só foi possível graças ao Cubo, é por isso que Howard Stark construiu o Reator Arc, graças ao Cubo e sua introdução em Thor 1 e Capitão America 1.
    em Vingadores 1 Tony Stark e Steven descobrem que a SHIELD ainda produzia armas de destruição em massa com a energia do Cubo, Steven encontra varias armas da Hydra escondidas, isso ja era uma referencia ao segredo de Capitão America 2, quando a SHIELD se revelou estar corrompida pela HYDRA, novos caminhos estão traçados, agora Tony Stark vai assumir o controle da segurança nacional, puxando corda para a Guerra Civil futuramente... é nessas horas que você olha para trás e percebe que houve um grande planejamento para chegarmos ate aqui, varios elementos encaixados perfeitamente sem nenhum furo na cronologia, só um babaca ignorante fanboy não conseguiria enxergar esse planejamento excelente do universo Marvel, o jeito é criar textinhos para inferiorizar esse planejamento que hoje ja é muito maior do que qualquer critica fanboy como a sua, o universo continuara se expandindo.

    enquanto isso a DC prefere focar em apenas dois personagens para serem o centro da Liga da Justiça, enquanto a Marvel cria filmes solos de seus personagens, e você vem dizer que não ah desenvolvimento na Marvel? um guaxinim e uma arvore vão ganham um desenvolvimento nas telas adequadamente, e a Mulher Maravilha? ah vai ser coadjuvante debaixo da capa do Batman v Superman. larga de ser fanboy e não critica quem esta fazendo um otimo trabalho.

    agora pode deletar meu comentário.

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    1. Cara, não deletarei o seu comentário por que eu apoio a livre expressão.

      Mas acho que você pulou a seguinte parte do texto:

      "os filmes são ótimos passatempos com uma produção gigantesca, um planejamento invejável (a Fox deveria aprender) e diversos elementos indispensáveis dos quadrinhos."

      Se tem uma coisa que admiro nos filmes da franquia da Marvel é o planejamento.
      Desenvolvimento de personagens é muito diferente de tempo de tela de personagens.
      Não preciso discutir isso com você, afinal se você comentou dessa forma, significa que não entendeu o texto, se não entendeu o texto dificilmente vai entender a resposta que daria ao seu comentário. E eu assisti os filmes da Marvel, alguns mais de uma vez, pq eu GOSTO dos filme. Paguei pra ver alguns no cinema, então não venha me acusar de ser hater por ser realista.

      Mas talvez você devesse assistir um pouco de cinema referência pra sacar o que eu quero dizer... Bergman, Polanski, Buñuel, Hitchcock... Coisas assim...

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    2. Aliás, não sei se você percebeu também, mas elogiei Homem de Ferro 1 e Capitão América 2. E sobre os outros: todas as situações que você citou seriam ótimas, mas não é por quê elas estão lá que significa que são bem desenvolvidas.

      E ainda tem coragem de me chamar de fanboy hahahah... olha só quem fala.

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