quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Sobre o filme "Veludo Azul"


Obs.: Essa resenha não contém nenhum spoiler significativo em relação ao roteiro, mas ela pode influenciar sua visão na hora de ver o filme. Portanto, ela não vai te contar quase nada mesmo sobre o enredo, mas preferencialmente assista o filme antes de lê-la. 

O maior erro que alguém pode cometer ao assistir "Blue Velvet" de David Lynch é o de assistí-lo como se assiste um episódio de CSI com toques de noir.
Se a primeira cena da trama tivesse sido o passeio do personagem Jeffrey ao encontrar a orelha cortada que inicia a linha principal da narrativa do filme, talvez esse filme pudesse ser interpretado como um filme policial comum com alguns toques de loucura do diretor.

Mas antes que isso aconteça nós temos uma belíssima cena com cortes e edição no melhor estilo "propaganda de margarina" que é brutalmente interrompida por uma sequência perturbadora onde detalhes como mangueiras se enrolando em torno de objetos prenunciam o "mal súbito" que atinge o senhor que tranquilamente regava seu jardim, e logo depois a câmera filma a grama verde e bonita apenas para mostrar os insetos "predadores" e a escuridão que se esconde debaixo dela.


E é sobre isso que se trata o filme.

Eu disse que seria um erro assistir "Veludo Azul" simplesmente como um filme policial por que é algo intencional o fato de que o caso que serve como linha de costura da trama as vezes pareça pouco importante ou mal desenvolvido.
O pai doente de Jeffrey no hospital ainda era uma situação encarada com otimismo e tranquilidade pelo rapaz, uma vez que o mundo no qual ele vivia o mistério era algo fascinante e atraente.

Ao penetrar esse "mistério" que - na cabeça do personagem - "o encontrou", como que por destino, ele depara com uma realidade muito mais cruel do que a que ele estava preparado, e agora ele passa a querer desvendar esse caso não mais pela simples curiosidade ou adrenalina de juventude, mas por que ele precisa provar pra si mesmo que toda a escuridão que reside no mundo pode passar.


Nesse contexto, o roteiro e a direção de Lynch se desenvolvem brilhantemente ao alternar 'insanidade' e 'lucidez' e também a atmosfera de 'sonho' e 'pesadelo' com uma brutalidade e surrealismo que choca a sensibilidade. O envolvimento doentio de alguns personagens se contrapõe à relação saudável de outros, a vida perfeita familiar se torna algo ridículo perto da realidade vivida pela cantora Dorothy Vallens (muito competentemente interpretada por Isabella Rosselini), assim como a personalidade quase pueril do jovem Jeffrey se contrapõe à maldade insana do vilão Frank Booth (brilhantemente interpretado por Denis Hopper).


E no meio de todos esses contrapontos, vemos Jeffrey questionar se ele mesmo não estava começando a parecer-se com tudo o que acabara de conhecer e abominava - e nesse sentido, o roteiro também e genial ao evitar ao máximo contar qualquer coisa sobre o passado dos personagens, nos fazendo incertos sobre se são realmente assim tão bonzinhos ou tão malvados.

Nessa cachoeira de metáforas, analogias, paradoxos e antíteses, o desfecho que Lynch nos propõe pode ser considerado de uma ambiguidade cruel que pode acalentar os corações mais otimistas ou pode parecer um sorriso de escárnio diante de tudo o que vimos. 

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