quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Sobre o filme "Repulsa ao Sexo"


Eu sempre me canso um pouco no início dos filmes do Roman Polanski. Isso é algo do meu gosto pessoal, eu o considero um gênio do cinema.
Compreendo perfeitamente o que ele está fazendo nos primeiros momentos dos filmes. Ele prepara o terreno de uma forma incrivelmente cuidadosa, tanto que alguns chegam a achar lento demais esse desenvolvimento.
Eu não acho lento demais, mas tenho um gosto particular por desenvolvimentos mais ágeis - é um problema que eu tenho na literatura com o Stephen King e seus rodeios por exemplo (mas isso é outra história). Sim, infelizmente fui educado em cinema na geração As Panteras - e não me orgulho disso.
Em contrapartida, desde o início você percebe algo de errado na personagem principal, Carol Ledoux, brilhantemente interpretada por Catherine Deneuve - aliás, a escolha de um "sonho de consumo masculino" para fazer uma personagem que abomina contato físico com homens foi simplesmente genial!
E Polanski SABE MESMO como fazer você perceber isso.
Os devaneios pensativos dela, que mostram que ela não pensa nem enxerga as coisas de maneira comum, aparecem logo na primeira cena. A paranoia e repressão sexual são perceptíveis mesmo antes de serem externadas em atitudes mais enfáticas dela.
Então, de um interessante e intrigante estudo de uma personagem feminina com problemas óbvios com homens, repentinamente nos vemos num filme de paranoia, loucura e insanidade que nos joga dentro de um pesadelo sem medo de nos fazer tremer.
Visualmente genial da primeira à última cena, Repulsa ao Sexo nos faz refletir onde foram parar os diretores que conseguiam contar histórias de maneira brilhante sem que precisassem de diálogos, flashbacks e exposições em excesso pra isso.
Sem medo de ser sutil ao citar apenas visualmente fatos da vida de Carol e coisas que normalmente seriam foco de exposição no roteiro, Polanski em contrapartida, faz questão de jogar enfaticamente na nossa cara todos os sinais de perturbação da protagonista.
E ele faz isso de modo a nos colocar conscientemente no mundo dela, e quando ela está em cena somos "obrigados" a enxergar tudo do modo como ela enxerga: a realidade está nas entrelinhas da nossa cosmovisão.
Com toda essa genialidade, o cineasta criou uma obra de terror puramente psicológico que ao meu ver é mais perturbadora até do que "O Bebê de Rosemary", que justamente por tratar de forma óbvia do "sobrenatural" escolheu uma paranoia mais sóbria na qual se apoiar. O extremo realismo da situação de Ledoux permitiu que ele explorasse um mundo de pesadelos que nos joga num estado de constante agonia e nos entrega um resultado absolutamente genial, que em nenhum momento se deixa perder.

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