segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Sobre a Incrível Série "Rectify"



Em dado momento na primeira temporada de "Rectify", seu protagonista, Daniel Holden, solta a seguinte frase: "É a beleza que machuca mais, não a feiura". E essa é uma frase que resume bem o clima da série: Bela e dolorosa.
Depois de 20 anos preso por confessar o estupro e o assassinato de uma jovem de 16 anos, Daniel Holden escapa do corredor da morte quando surge uma nova evidência de DNA. A partir daí a série (que é dos produtores da aclamada "Breaking Bad) se desenvolve, até agora, em três temporadas - a primeira com seis, a segunda com dez e a terceira de novo com seis episódios, cujo foco nem sempre é o crime ou a culpa de Daniel.

Acompanhamos sua difícil adaptação ao mundo aqui fora.
Daniel havia deixado a liberdade no início dos anos 90. Qualquer um que tenha uma vaga lembrança daquela época, sabe como muito mudou desde então. Mas é mais do que apenas os formatos ou a tecnologia. Muito mudou na família de Holden também.
Durante os 20 anos em que esteve preso numa cela branca opressora lendo muitos e muitos livros, seu pai morreu, sua mãe casou novamente com outro homem que já tinha um filho e teve ainda outro filho mais jovem com ele. Por todo esse tempo, Amantha, sua irmã, dedicou toda a sua vida em investir tempo e dinheiro em causas, livros e advogados para tirar seu irmão do corredor da morte.

Daniel parece ter esquecido como é viver em comunidade, como é conversar com outras pessoas que não fossem os guardas ou seus vizinhos de corredor da morte - especialmente seu melhor (ou único, até então) amigo Kerwin. Ele as vezes é honesto demais, outras vezes não sabe o que dizer.
Não teve tempo de amadurecer enquanto convivia com outras pessoas, embora suas horas de leitura tenham lhe conferido certa sabedoria.

Mas não é apenas ele que tem que se adaptar. A família Holden/Talbot sofre uma reestruturação generalizada com a saída de Holden da cadeia, trazendo à tona velhas dores, novas dinâmicas de relacionamento e complicando e muito a vida de alguns dos seus familiares, especialmente o filho do seu novo padrasto, Teddy, que sente como se seu espaço na casa dos Holden por todo aquele tempo, fora repentinamente tomado pelo "filho pródigo". A tensão fica evidente desde o início. Nesse contexto, máscaras caem, o verniz social se desmancha e a foto de família "comercial de margarina" aos poucos vai ruindo até parecer que não tem mais volta.

Isso, é claro, afeta também toda a cidade de Paulie, onde ocorreu o crime, e também traz à tona, além do caso de assassinato de Hanna Dean, diversas tensões políticas e sociais que se estabeleceram naquela época.

E é justamente em todas essas dinâmicas de relacionamentos que o drama de "Rectify" mostra sua virtude. Escrita com uma sensibilidade extraordinária e dirigida com certo brilhantismo, a série mergulha o público em todos aqueles personagens de forma tão profunda e visceral, que torna difícil saber para onde as decisões deles os levam. Essa verossimilhança rara em uma série de TV cativa quem assiste. Sem nunca forçar a barra com decisões extremamente absurdas para o que conhecemos dos personagens, a série também nunca nos deixa seguros sobre o que pode acontecer na história, de tão humanos são os personagens.
Então, ora ela te frustra, ora te arrebata, ora te arranca sorrisos ou mesmo lágrimas.

E a maior genialidade não está apenas nos diálogos profundos e sensíveis que discorrem sobre relacionamentos, sentido da vida e espiritualidade, mas principalmente nos momentos de maior silêncio, quando apenas a trilha sonora pontual, o barulho do ambiente, a luz natural e as excelentes atuações do elenco, juntos formam belíssimos quadros e cenas repletos de sentimentos e significados.

Outro trunfo da série está em não deixar certeza, até então, se Daniel é realmente culpado ou não. Quando estamos quase nos convencendo de sua inocência, uma decisão dele ou mesmo um pequeno gesto nos faz questionar se ele realmente não matou Hanna Deen. E se a excelente season finale da segunda temporada e o decorrer da terceira deram novas pistas e avançaram no caso, fica bem claro desde o início que, apesar de ser um recurso fundamental do roteiro, nos deixando inseguros em relação ao destino dos personagens, o caso em si e a culpa/inocência de Holden nunca são o foco principal.

Isso provavelmente irritaria alguns que gostam de enredos mais frenéticos ou estão acostumados com os modelos dramáticos e repletos de reviravoltas insanas de séries mais comerciais e conhecidas. Mas o ritmo calmo e até arrastado de Rectify é parte da sua genialidade. Embora a segunda temporada não precisasse dos dez episódios que teve (08 seria um bom número), a série é tão boa em te fazer importar com os personagens, que você teme, se alegra, se entristece, se frustra, grita "SIM!" ou se enfurece com o destino e as decisões deles.

Aden Young é brilhante em sua interpretação de Holden, conseguindo o ponto exato entre a dúvida e a empatia necessárias para gostarmos e ao mesmo tempo desconfiarmos do personagem. Talvez seja justamente sua excentricidade, unidas à sua polidez e aparente ingenuidade que constroem toda a atmosfera ambígua e misteriosa que cerca o personagem que vamos conhecendo aos poucos.
Mas os créditos não vão só pra ele. Talvez com exceção do jovem ator Jake Austin Walker, que interpreta o curioso e confuso irmão mais novo de Holden, todo o elenco segura bem seus personagens e nos faz acreditar neles.

Isso tudo, fora a técnica e a maneira cinematográfica com a qual a série é filmada, tendência que suas companheiras True Detective e Mr. Robot acompanham muito bem. Há cenas tão belas, tão sensíveis, as vezes arrebatadoras, as vezes cruéis, que fica difícil escolher alguma pra citar. E mesmo com seus temas pesados, a série nunca apela para a violência ou nudez e sexo para chocar ou ganhar público, embora consiga chocar e ser violenta quando necessita.

É claro que esse é um texto recomendando que você assista a série. Mas não a indicaria para qualquer um. Para começar é preciso ter paciência e gostar de ver as coisas não só para se divertir, mas também para pensar. Há muito o que procurar e achar nas entrelinhas do enredo e das imagens e expressões. Rectify não foi feita para alimentar o escapismo, mas para ser aquele tipo de ficção que parece realidade, tanto que em alguns momentos vai parecer chata pra quem gosta do escapismo da ficção.
Depois, embora não tenha cenas fortes de violência, não recomendaria para quem tem um coração muito fraco. A série pode ser muito cruel com quem é muito sensível e gosta da segurança de que na ficção "tudo se encaixa".
E por último, só assista se estiver disposto a enxergar a humanidade como ela é, muito além dos estereótipos do vilão e do mocinho, muito além de todos os nossos conceitos de pessoas detestáveis ou adoráveis. Se você criar expectativas em cima das atitudes dos personagens, assim como é na vida real, você pode acabar sendo frustrado.
E embora isso pareça um ponto negativo, certamente é uma das maiores genialidades de "Rectify" e é exatamente o que faz dela uma das mais belas e dolorosas séries que já assisti.

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