sábado, 18 de julho de 2015

Sobre o Filme Mad Max: Estrada da Fúria



Quando eu assisti o trailer de Mad Max: Fury Road pela primeira vez meu pensamento foi: "Eu preciso assistir esse filme". E foi só por que eu queria ver o espetáculo visual que eu percebi que havia sido criado pelo cineasta George Miller - realmente conhecido por sua franquia Mad Max e, pasme, a animação Happy Feet e sua continuação e também a comédia "As Bruxas de Eastwick" (1987).
Pelo que eu havia visto no trailer, apenas o espetáculo visual já valeria o filme.
Felizmente, o filme me entregou muito mais do que eu esperava.


Claro, para pegar todas as nuances narrativas de um filme que basicamente é uma perseguição insana de máquinas insanas num deserto pós-apocalíptico, precisa-se prestar atenção em todas as dicas visuais e narrativas que o roteiro escrito a três mãos pelo diretor George Miller, Brendan McCarthy e Nick Lathouris solta nas entrelinhas de toda aquela adrenalina.

Com uma propriedade raramente vista em blockbusters, Miller, no auge dos seus 70 anos, dá uma aula de como fazer um filme explosivo, comercial, com muita ação, insanidade e originalidade, poucos diálogos e tudo isso sem perder em nenhum momento a veia artística, a visão crítica do mundo e conteúdo em cascata para discussões filosóficas e poesia visual.


Quando eu repito a palavra "insanidade", não é à toa. Tudo no filme parece louco demais, a aparência dos personagens, a estrutura dos veículos, a cultura desse cenário pós-apocalíptico, o exagero (creio que nunca esquecerei aquele cara cego tocando guitarra no comboio, dando sinais, enquanto a batalha rola solta). Isso tudo além da direção frenética do Miller, que parece não parar por um segundo que seja nas cenas de ação. O que não impede que elas sejam perfeitamente compreensíveis e "limpas" - equilíbrio que cineastas mais jovens hoje parecem não conseguir.

Aliás, o crédito vai também para algo ainda mais raro hoje em dia: o máximo de efeitos práticos possível. E é incrível como as cenas parecem grandiosas e espetaculares no mesmo nível que provocam aquele paradoxo de absurdo e realista ao mesmo tempo - de um jeito que só o cinema consegue fazer. Isso tudo unido à uma fotografia saturada que provoca choques de sensações tremendos. A lista de cenas visualmente espetaculares é extensa demais para que eu cite os exemplos, embora a cena da Tempestade de Areia seja um espetáculo a parte. Que fotografia!

Mas claro, o mérito não é só da produção e da direção.

Embora eu considere que o trabalho do Tom Hardy aqui seja apenas regular e não há muito o que ele possa fazer, ele leva bem o filme, mas definitivamente, o carisma fica por conta da incrível Charlize Theron, que rouba completamente a cena no papel da Imperatriz Furiosa - e consegue ficar linda mesmo careca e suja. Não creio - como muita gente parece crer - que haja aqui um problema de roteiro em relação ao protagonismo. O roteiro divide bem o tempo de tela e a importância de ambos os personagens, Max e Furiosa - até por que, aqui quem passa pela jornada do herói completa é o Max e não a furiosa. A questão é que Theron realmente faz um trabalho nível acima do Hardy e seu carisma se sobressai.

Aliás, aqui entra o mérito do roteiro de entregar tudo o que uma pessoa que quer apenas ver a pancadaria quer, mas também entregar personagens que são construídos e conhecidos pelo público ao longo do filme sem necessidade nenhuma de diálogos expositivos e extensos ou apresentações longas. O relacionamento entre eles, suas motivações e tudo o mais são construídos através de suas atitudes, suas pequenas frases. Na medida que somos apresentados ao filme, somos apresentados a eles, de forma que ao final, já os conhecemos e entendemos onde seus caminhos os levaram.

Isso é uma manobra esperta do roteiro que usa as circunstâncias em que Max e Furiosa se conhecem para nos apresentar a eles e à forma como eles se relacionam com Immortan Joe (o improvável vilão da história).

E no meio de tudo isso há diversos subtextos e críticas sócio-econômicas. O próprio cenário e condições de vida já entregam uma crítica direta à maneira como esgotamos nossos bens naturais indiscriminadamente. Mas há mais do que isso, críticas à cultura de massa, fanatismo religioso, violência gratuita, ao machismo (essas possuem um espaço especial inclusive), ao preconceito, regimes totalitários etc.

Há também diversos momentos singelos no meio de toda essa brutalidade. A poesia visual e o simbolismo não verbal do cinema é usado com maestria e cria belas cenas - há um momento particularmente curioso que quase ninguém presta atenção, mas que dentro do contexto tem muito significado. Após uma batalha feroz que sequer presenciamos, Max lava o sangue em sua face com leite materno mesmo depois de saber que o que havia na torneira não era água. O nascimento, símbolo da vida, sobrepujando a morte no simples ato de lavar o rosto. O número de pequenos simbolismos como esse é incontável no decorrer do longa.

O filme também traz diversas jornadas paralelas de personagens secundários que têm seu carisma e suas próprias conquistas ao longo do filme. Por exemplo, é interessantíssimo observar a jornada de Nux (Nicholas Hoult) em seu fanatismo político-religioso, sua busca por aprovação e por um alvo que acredita ser o melhor, seus questionamentos e dúvidas e por fim seu desencanto, que como consequência leva-o a uma decisão que gera uma das cenas mais poéticas de todo o filme.


O tempo inteiro somos jogados de um lado para o outro junto com os personagens. O roteiro, mesmo seguindo uma estrutura bastante simples, nunca é previsível e a sensação que temos é que nenhum dos personagens está seguro. Isso faz com que ele pareça um clímax estendido por duas horas que quando terminam, nos lembram que temos que voltar a respirar.


Minhas expectativas em relação a este filme estavam tão altas, que tive medo de assistir e me decepcionar. Lendo por aí comentários nas redes, vi que alguns se decepcionaram com o filme por conta do hype em cima dele, mas, tirando toda essa questão de gosto, creio que a experiência só é completa quando você tenta enxergar nele mais do que a ação e as explosões, e percebe que no fim das contas não é um filme sobre perseguição.

É um filme sobre busca.

Um comentário:

  1. Excelente texto, assino em baixo!
    O filme é incrivel. E o maior merito pra mim não foi dó a perceguição muito bem feita, ou a qualidade qualidade do plot principal e dos sub-plots; mas a qualidade do mundo criado para o filme. É sujo, pervertido, peverso, passou uma sensação "crivel" de futuro pos apocaliptico. Isso foi o grande fator determinante paradar lida a todo o restante do filme!
    Neste cenario perfeitamente caotico, da pra aceditar em toda a trama, nos sub-plots, e, quem sabe futuramente, revisitar a Titia na Cupula do Trovão!

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